17/11/2009

Banzé

Ontem eu vi um cachorro no meio da rua perseguindo um carro.

Na verdade eram dois vira-latas, mas somente um cachorro perseguia o carro. O outro se contentava em apenas olhar o parceiro suicida. Ambos mancavam. Provavelmente, já foram atropelados por outros carros e persistem em persegui-los.

Na hora achei trágico e incrivelmente engraçado. A burrice daqueles cachorros, mas ao mesmo tempo, aquilo me fez sorrir. A alegria tola (praticamente infantil) que tão clara e maravilhosamente fazia a alma daquele banzé feliz. Ele queria, queria muito, correr atrás dos carros. Seu rabo (assim como de seu parceiro) balançava freneticamente. Bobos.

Então eu percebi.. eu sou um dos cachorros mancos. Sou o que persegue carros iguais aqueles que já me atropelaram e eu sinto aquela alegria tola. Enchendo meus pulmões, que me fazem gritar e suar de alegria e excitação. Se eu tivesse um rabo, estaria balançando-o nesse momento.

Bobo.

19/10/2009

Po(l)emizando (ou não)

Escuto uma balada do Baleiro
Enquanto fumo um café
Bebendo cigarros
Enquanto tremo de fome.

Vejo um surto
De poemas
Nesses dias
Pelos becos.

Tudo aquilo
que eu leio
Virou poema concretista
Ou concreto em frases secas.

O que tem de errado a prosa?
A descrição, desconstrução
Acho que é desilusão
Que vê beleza no comum
Poemas na solidão.

07/10/2009

Sem título XX

De repente eu acordo e parece que se passou um ano desde a última vez em que estive desperto. As datas coincidem, não parece que se passou tanto tempo, mas sobram alguns resquícios de algo que eu não me lembro de ter feito e de coisas que me lembro claramente de fazer, mas cuja lembrança não é compartilhada por ninguém.
De repente eu vejo textos inacabados que não parecem fazer o menor sentido e que eu não lembro de sequer ter tido a idéia inicial, perdidos no labirinto de pastas de meu computador pessoal. Frases anotadas em pequenas folhas do bloco de anotações que carrego sempre comigo, na mochila, e que raramente é usado (a não ser para anotar telefones ou endereços – minto, nem ao menos pra isso).
E visões durante os raros sonhos de coisas que já se passaram, mas acontecendo de uma forma completamente diferente – da forma como eu gostaria que tivessem acontecido, ou da forma mais bizarra e louca possível – o que vem a ser a mesma coisa.
Parece até que criei uma enésima personalidade, que agora assumiu o controle de tudo e que apagou qualquer resquício da original (e qual seria?).
Ah, que merda. E me sinto meio entorpecido o tempo inteiro, como se doses de whisky fossem injetadas diretamente na veia através de um tubo invisível – whisky e sangue seco, fazendo parar a circulação e obstruindo a passagem de qualquer tipo de sensação. Células nervosas cujas ligações com o cérebro foram cortadas, e que não deixam chegar as substâncias químicas que geram aquilo que o ser humano chama de sentimentos. Nada floresce nesse deserto em que me transformei.
E de repente eu ouço uma música que age como uma rota de fuga daquilo que construí, e uma parte de mim só observa enquanto outra ri e diz que aqui é meu lar, é tudo que sempre quis e tudo aquilo que um dia vou querer, porque no fim não quero nada.
E eu não produzo mais nada, eu não faço nenhuma diferença nem pra mim mesmo, e isso não é um chororô, mas uma conclusão lúcida e resignada. Quando digo que não tenho nada a perder, no fundo quero dizer que a única coisa que tenho a perder é o nada, que o nada simboliza tudo que posso esperar, uma paisagem onírica que não possui nenhum elemento e cuja beleza é ímpar.
Todos já devem ter visto uma sala toda branca em algum filme, e estas salas sempre me fascinaram, provavelmente tanto que... e eu acabo precisando de uma válvula de escape.
“O que pintar pintou, é isso que tu é”, e as tintas secaram no deserto.