10/11/2008

Sem título 25

O rosto dela estampado no jornal era uma foto antiga, quase que uma máscara juvenil. Ela devia ter, na foto, uns 18 anos; hoje, uns 23, 24. Não sei ao certo – é algo que raramente pergunto. Ela tinha saído de casa fazia um tempo já, pra viver uma vida louca.

Conheci-a numa noite, numa boate na Cidade Baixa. Tínhamos encontrado – eu e o Pedro e o GI Joe – duas conhecidas do Pedro, que nos convenceram a ir lá. Bem, na verdade convenceram ele, uma vez que era ele que tinha dinheiro – na verdade, verdade mesmo, eu era o único sem dinheiro, como de hábito. Confesso que me senti tentado pela promessa de bebida liberada.

- É que tem um cara que trabalha lá que é louco pela Fabi.

- E o que significa isso, em termos etílicos?

- Significa que a gente pode arrumar bebida de graça.

- Hmmmmmmm...

Esse “hmmmm” selou meu destino naquela noite. Eu devia ter imaginado que as duas, ao chegarem lá, logo se misturariam à massa e que não ia dar certo pra mim. Mas não; fui enganado, caí como um pato numa promessa ridícula. De qualquer forma, não fui eu quem pagou minha entrada.

Tinha há recém me dado conta da roubada em que me entrara (não gosto de danceterias, boates ou afins – meu negócio é buteco mesmo, tomar um trago e jogar conversa fora) quando o cara sentado na mesa ao lado olhou pra mim e disse:

- Tu não nota , olhando pra essa gente toda, o quanto todo mundo é igual?

“Ótimo”, pensei, “tudo que eu precisava agora era de um papo cabeça”. Não me lembro direito da resposta que dei, mas pareceu ao cara algo muito inteligente, pois ele continuou a conversa. Felipe era o nome, acho. Ou Leonardo, ou Augusto, ou Joaquim, ou qualquer outro. Isso não importa.

Quando ele foi ao banheiro (mais tarde eu descobriria, através de uma informação passada pelo Pedro, que ele estava vendendo cocaína), uma guria chegou e falou no meu ouvido:

- Tu é de gêmeos, né?

“Beleza, agora vamos variar um pouco; tenhamos um papo esotérico”.

- Não, não sou – respondi, sorrindo.

- Deixa que eu adivinho então.

- Já errou a primeira, tem mais duas chances – sorriso novamente.

Cara, o olhar que aquela mina me deu me arrepiou a alma.

- Eu sou sensitiva, vou acertar.

- Vai firme.

Nisso voltou o Felipe:

- Tu conhecia ele já?

- Não, só tava adivinhando o signo dele.

- Errando, pra falar a verdade – falei.

Outro arrepio. Não podia evitar esse tipo de comentário.

- Bah, eu tava justamente conversando com esse cara antes!

- Tu vê, é o destino... A gente tinha que encontrar ele aqui hoje.

- Essa é minha namorada, a Lirane.

- Li o quê?

- Lirane – ela disse, quase beijando (ou mordendo) minha orelha direita.

- Lirane? Prazer.

Seguiram-se alguns diálogos, que hoje em dia estão desconexos e confusos na minha mente. O estranho foi que não cheguei a conversar com os dois juntos; era um pouco com cada um.

Com o Felipe, falei sobre Pink Floyd, fazendo uma conexão com a clássica imagem do clipe de “Another Brick In The Wall Part II”, em que as crianças são levadas por uma esteira até o moedor de carne. Ele me comentou que ele conhecera ela há uns seis meses, e que estavam morando juntos num apartamento ali perto, na Fernando Machado, se não me engano. Disse que se sentia muito pra baixo, muito deprimido sempre, e que se drogava por conta disso (os dois cheiravam cocaína, mas ele não me contou que também vendia – isso eu descobri depois; e me contou que ela era só isso, mas que ele tava na H também).

Ela continuou tentando adivinhar meu signo.

- Leão!

- Errou de novo.

Ficou um tempo em silêncio.

- Já sei... Essa cara zombeteira... Esse corpo forte... Esse ar de quem não tá nem aí pra nada... Tu é de peixes, porra!

“Corpo forte? A pobrezinha tá meio lelé”.

- Agora sim. Não tinha dito que era sensitiva?

- Sim, mas num ambiente assim, muita coisa passando... É complicado.

- Ah, claro, entendo.

- Mas eu senti uma energia vindo de ti; por isso eu vim conversar contigo.

Na verdade, eu tinha visto ela conversando com outras pessoas também. Muito eficiente essa sensitividade.

- É mesmo?

Parou na minha frente, de repente séria. Olhando fundo nos meus olhos, me disse:

- Eu não gosto de ser cobiçada quando estou acompanhada.

- Cobiçada?

- Eu não gosto.

- Como assim, co...? Péra, tu quer dizer que eu tô te “cobiçando”, é isso? – falei, rindo.

Ela sorriu também. Depois, ainda na linha “oi, eu li alguns almanaques wicca, alguns livros de ocultismo, construí um altar e agora sou bruxa”, disse que eu tinha uma aura (ou o diabo, não lembro) pesada, negra, que tava repleto de energias estranhas em mim, que eu tinha absorvido isso, eu absorvia as energias dos ambientes, e que tinha que me purificar.

Aqui cabe um aparte: sempre tive um certo interesse no misticismo, embora nunca tenha me passado pela cabeça praticar qualquer ritual ou seguir qualquer seita. Li vários livros sobre bruxaria, mas nenhum grimoire me chegou às mãos, nem tampouco fiz contato com alguém do meio. Lembro que, quando tinha uns quatro, cinco anos, vi duendes no condomínio em que morava. Até hoje não sei se foi alucinação – até porque mal me lembro de como ocorreu, se estava brincando ou se sonhei isso tudo. E (isso provavelmente não tem nada a ver, mas é mais uma característica minha) odeio sentar de costas para portas ou janelas – sempre tenho a impressão de estar sendo observado, e odeio ser observado sem poder observar a criatura também. Mas isso é uma bobagem, só vai ficar aí porque estou escrevendo à mão e não quero ver três linhas riscadas nesta folha tão bonita. Enfim, continuando. Hoje em dia a única ligação que tenho com isso são os três cristais que uso num colar – uma ametista, uma água-marinha e um citrino. Se me perguntarem pra que seria cada um, já não sei responder. O fato é que, assim como desdenho de cool wannabes que ouvem Chico Buarque e louvam o cara como sendo um deus, desdenho também de metidos a bruxos. Isso não quer dizer que não converse com pessoas assim, mas quer dizer que, caso se toque no assunto, eu vou fazer comentários irônicos a respeito. E isso geralmente faz com que esse tipo de gente se afaste de mim, do que não reclamo – pra mim tanto faz.

Adiante. Perguntei, apontando uma long neck vazia de Skol:

- Isso se faz com álcool?

Ela riu, se afastou e voltou logo depois, trazendo uma garrafa de cerveja.

- Não, não... É um pouco mais complicado que isso. Vamos fazer o seguinte, marcamos um dia pra nos encontrarmos e eu te explico.

Também tinha o lance de a Catedral Metropolitana ter faces de demônios do 5º círculo do inferno (borás? barás? não lembro mais) esculpidas nas laterais, e como isso, não sei bem o porquê, não era legal. Isso também ela queria me explicar melhor.

- Amor, tem um papel aí? E uma caneta?

Ele pegou o papel laminado da carteira de cigarros (Free... o cara cheira cocaína e usa heroína, mas fuma FREE! Vai entender essa gente; por que não fuma um cigarro decente?) e passou pra ela.

- Não tem problema ele ir lá em casa, né?

- Claro que não... Pode ir sim.

Enfim, pra encurtar a história, porque as folhas tão acabando: visitei-os na semana seguinte (não entendi, e não entendo até hoje, o porquê. Eu provavelmente não tinha mais nada pra fazer), ela nem lembrava dos assuntos a explicar. Freqüentei o apartamento por algum tempo, e foi aí que eu descobri que ele vendia coca – alguns clientes chegavam enquanto eu estava lá. Antes que alguém diga alguma coisa, não utilizei nenhuma das mercadorias – cocaína e heroína são from hell, não rola.

Durante algum tempo, também, eu e ela tivemos um caso, do qual não vou dar mais detalhes por discrição. Ele nunca ficou sabendo, apesar de eu visitá-la lá mesmo – obviamente, quando ele estava fora. O porteiro era gente fina, e só dava uma piscada quando eu chegava.

Nenhuma das duas coisas durou muito, contudo. Como acontece comigo diversas vezes, acabo ficando entediado com a rotina e resolvo jogar tudo pro alto. Parei, aos poucos, de visitá-los e de visitá-la, e nunca mais vi nenhum dos dois.

Não pessoalmente. Mas vi uns tempos atrás uma nota no jornal sobre um homicídio passional, e a vítima era ela. O namorado era outro, atacou-a com uma faca de cozinha, o maldito.

Ontem estava limpando a agenda do celular, e encontrei o número dela. Resolvi escrever alguma coisa sobre o lance todo, antes de apagá-lo. E agora eu sei que nunca vou saber o que é um borá e o porquê não é legal ter suas faces esculpidas nas laterais de uma igreja.

As pessoas passam depressa.

4 comentários:

Edison Rodrigues disse...

um imenso prazer ver o "anti" de volta por aqui..q é sua própria casa diga se de passagem.. e nem limpou os pés,tsc tsc tsc.

grande texto, tinha comentado no msn..mas comento aqui...FUDEROSO!

Anti disse...

Na verdade, é uma droga de texto.

Mas entro, cuspo no chão e ainda ponho os pés em cima da mesa de centro.

magnus disse...

Sim, uma bosta. Mas uma bela bosta.

Edison Rodrigues disse...

mbra uma guria q ficava dizendo que era feia pra todo mundo dizer q ela era gata! Tá fazendo docinho é?! tsc tsc tsc..bibinha

hehehehehehe