07/10/2009

Sem título XX

De repente eu acordo e parece que se passou um ano desde a última vez em que estive desperto. As datas coincidem, não parece que se passou tanto tempo, mas sobram alguns resquícios de algo que eu não me lembro de ter feito e de coisas que me lembro claramente de fazer, mas cuja lembrança não é compartilhada por ninguém.
De repente eu vejo textos inacabados que não parecem fazer o menor sentido e que eu não lembro de sequer ter tido a idéia inicial, perdidos no labirinto de pastas de meu computador pessoal. Frases anotadas em pequenas folhas do bloco de anotações que carrego sempre comigo, na mochila, e que raramente é usado (a não ser para anotar telefones ou endereços – minto, nem ao menos pra isso).
E visões durante os raros sonhos de coisas que já se passaram, mas acontecendo de uma forma completamente diferente – da forma como eu gostaria que tivessem acontecido, ou da forma mais bizarra e louca possível – o que vem a ser a mesma coisa.
Parece até que criei uma enésima personalidade, que agora assumiu o controle de tudo e que apagou qualquer resquício da original (e qual seria?).
Ah, que merda. E me sinto meio entorpecido o tempo inteiro, como se doses de whisky fossem injetadas diretamente na veia através de um tubo invisível – whisky e sangue seco, fazendo parar a circulação e obstruindo a passagem de qualquer tipo de sensação. Células nervosas cujas ligações com o cérebro foram cortadas, e que não deixam chegar as substâncias químicas que geram aquilo que o ser humano chama de sentimentos. Nada floresce nesse deserto em que me transformei.
E de repente eu ouço uma música que age como uma rota de fuga daquilo que construí, e uma parte de mim só observa enquanto outra ri e diz que aqui é meu lar, é tudo que sempre quis e tudo aquilo que um dia vou querer, porque no fim não quero nada.
E eu não produzo mais nada, eu não faço nenhuma diferença nem pra mim mesmo, e isso não é um chororô, mas uma conclusão lúcida e resignada. Quando digo que não tenho nada a perder, no fundo quero dizer que a única coisa que tenho a perder é o nada, que o nada simboliza tudo que posso esperar, uma paisagem onírica que não possui nenhum elemento e cuja beleza é ímpar.
Todos já devem ter visto uma sala toda branca em algum filme, e estas salas sempre me fascinaram, provavelmente tanto que... e eu acabo precisando de uma válvula de escape.
“O que pintar pintou, é isso que tu é”, e as tintas secaram no deserto.