Ele estava ali, sentado na poltrona que eu ajudei a escolher, na sala do apartamento para o qual se mudara há pouco mais de seis meses. Morto - duro como o sobrenome. A posição e os trajes indicavam que havia sido pego de surpresa. E eu não estava lá - estava gerando lucro para um sanguessuga que não dava a mínima.
Eu estava conseguindo me controlar, até que olhei pela janela e o vi, da mesma forma que seus colegas haviam visto. Senti faltar o chão sob meus pés. O soluço saiu dolorido pela garganta irritada. Meu pai morrera, e na última vez que o vira pessoalmente nosso último diálogo fora "obrigado, pai" e "de nada, filho" - e isso pode resumir nossa relação muito bem.
Eu lembro de quando ele me deixou usar o computador pela primeira vez. Eu lembro de quando ele chegava em casa, cansado do trabalho, mas sempre carinhoso. Eu lembro de como ele sempre ia nas apresentações idiotas da pré-escola - sempre com uma câmera no ombro, gravando tudo, como se fosse a coisa mais importante do mundo. Eu lembro de quando uma vez, eu senti dor de cabeça e ele foi me buscar na escola, e de como eu fui brincar no parquinho, tentei pular do balanço e caí de queixo no chão... e de como ele limpou a areia, fez o curativo e fez passar a dor. Eu lembro de como ele deixava que eu e meu irmão ficássemos acordados até mais tarde, vendo filmes com ele na TV, mesmo tendo aula no outro dia, só pra poder passar um tempo conosco. Eu lembro de como ele ficava imediatamente feliz quando aparecíamos, dos abraços, dos tapões nas costas mútuos.
Tivemos nossos conflitos, como todos têm. Mas eu sempre acreditara que ele me amava profundamente - porque eu o amava da mesma maneira. E agora que ele se foi, é como se o mundo ficasse mais frio e duro do que nunca. Nessas horas eu invejo aqueles que possuem alguma crença espiritual - para mim, o único ambiente que ele frequentará de agora em diante é gelado e cheio de vermes.
Sei que ontem foi a pior noite que já vivi, e provavelmente uma das piores que viverei. Quando eu finalmente estava começando a escutar o que ele me dizia, ele se foi. Mas não será esquecido - suas palavras ecoarão em minha mente e seu sangue correrá em meu corpo por toda a minha vida.
Obrigado, pai, por tentar me ensinar a jogar bola, a andar de bicicleta, a jogar sinuca. Obrigado pelo apoio sempre que preciso, pelas conversas sérias, pelos conselhos (ainda que geralmente eu não seguisse - ser cabeça-dura é "mal de família"), pelas broncas, pelas risadas, e até por aquela única e merecida surra. Obrigado, pai, pelas partidas de xadrez (se me desse mais uns anos eu conseguiria te ganhar), pelos filmes, pelos livros desde que eu era pequeno (aquela coleção do Tesouro da Juventude, edição de 1940 e poucos, ainda é folheada nas noites de insônia), pelos CDs que eu pegava emprestado e nunca mais devolvia, pelo gosto pelo conhecimento. Pelo exemplo de honestidade, de integridade, de afeto, de senso de justiça, de sacrifício, de coragem, de força, de ternura, de generosidade, de ser o melhor pai que qualquer um poderia querer.
Obrigado, pai, por tudo.
There goes my hero, watch him as he goes...
Assinar:
Postar comentários (Atom)