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26 de set. de 2007

Ganesh

Acendo um incenso de canela para disfraçar o indisfarçável cheiro da leveza de meus pensamentos. Estou me sentindo tão bem agora, que até acredito em tua existência, mesmo que, eu nunca tenha te visto estando sóbrio ou sem nenhum outro alterador de minha percepção.
Parado aqui tomando um chá de morango, comendo umas Trakinas para aplacar a fome e ouvindo um Coltrane, simplesmente uma tarde perfeita. Eu podia passar meses assim, sem ver a cor do sol.
Agora estou mal, meio bobo, disperso, confuso. Minha BEATficação parece estagnada, estou passando uma fase difícil sem saber muito bem nem o que não sei, nem o que não quero, muito menos o que almejo. Preciso me acalmar, diminuir a inquietação, a ansiedade. Talvez parar com tudo que é sincopado ou bebop e voltar aos berros, grunhidos, etc.
Que ajojo! Realmente não vou sair de casa. Agora não por não querer, pelo menos, não só por isso, também não posso. Me absorva mais, me absrova mais, na minha inércia...Seu sorriso é um paraíso e no ar vou em transe ao sol.
Já não sei se restou algo no ar, já não sei se restou algo a perdeeeerrrrr...

25 de set. de 2007

O que te envergonha?

Já escrevi quase tudo nestes textos até agora, sem muitas frescuras, não me preocupo em falar das bebedeiras, dos fiascos, do uso de drogas, dos traumas, das transas, dos amores, desamores, dissabores, vitórias, euforias, até mesmo, do meus atributos físicos não muito animadores. Toda essa falta de pudor pode dar a impressão de que sou altamente descolado, bacana, um legítimo boa praça. Nada disso, sou retraído, tímido, tenho medos bobos, daqueles bem infantis.
Sabe aquela coisa, interna, que te dá um suadouro quando vai ligar pra alguém? Tenho isso direto e não só com garotas, são raras as pessoas para as quais ligo sem titubear, sem pensar que estarei sendo inoportuno, sem pensar que não tenho muito o que dizer e, portanto, não deveria ligar. Outra coisa que me atemoriza é iniciar uma conversa com alguém não seja muito próximo, realmente próximo, fico adiando por qualquer motivo bobo, até perder a oportunidade e botar a culpa no acaso, nunca na minha falta de iniciativa. Jamais, minha falta de coragem nunca me atrapalhou!
Até quando vou continuar mentindo pra mim mesmo? Bom, talvez, para sempre! Quem sabe com o tempo eu vá invertendo a ordem natural das coisas, serei mais comedido por aqui nestas linhas públicas da web e, pelo contrário, tomar a frente no dia-a-dia. Algo que me traga a felicidade, ou melhor que eu encontre dentro de mim. Não serão pílulas, nem elas, nem mesmo o trago...Vou ali falar com fulana, discutir com cicrano e ligar para o beltrano.

19 de set. de 2007

12 Casas

Disperso em pensamentos confusos ele perpassa as páginas do jornal sem nenhum interesse em particular, bate os olhos no horóscopo, procura seu signo, vê boas notícias e não acredita, é claro. Não por desacreditar em horóscopos e sim por não acreditar em boas notícias, ele é pessimista, o mais pessimista de sua geração. Se sente como um uruca, carrega por sobre sua cabeça uma nuvem negra, seus dias são eternamente nublados, mas nunca chove, só fica na ameaça negra!
O telefone está em sua mão, dirige-se até a sacada, quer privacidade. Porém, congela e não liga, isso já virou rotina. É o seu medo, eterno medo do desconhecido, lhe falta coragem, lhe falta garra, em suma, hombridade! Vai passar o dia inteiro flutando pelos ambientes em seu trabalho sem fazer grande coisa, sem falar muito. Afinal, ele desistiu de pensar e agora, mesmo tentando, não consegue mais exprimir o que sente. Só há vazio e neste vazio específico não se ouve nem a palavra. Ele queria libertar sua mente para atingir as antenas no céu...
Joga as cartas mágicas, sai o enforcado, ele sorri, maroto, irônico, talvez até esteja feliz. É, mas seu regozijo dura pouco, seu desejo não vai acontecer, a morte não virá. Na última vez que a viu ela sublimou sua maldade, chegou bem perto, quase o tocou em seus lábios. Porém, deu meia volta e agarrou seu amigo rumo ao paraíso. No enterro, só pensava nela e na rejeição sofrida. Nem a morte o quer, há dias em que o sol não nasceu pra ele, turbilhão. Solidão, caminhar com sapatos novos por óbvio.
Mais um dia se passa e ele nota que está na mesma cama, com a mesma pessoa e vai enfrentar a mesma rotina, realmente não queria ter acordado, mas já que está aí, levanta, se banha, come, pega as fichinhas, desce, vai até a parada, espera, pega o ônibus, lê, lê, observa, lê, chega no campus, etc. Isso não vai acabar nunca!

18 de set. de 2007

Sensorial

São curiosas algumas associações que fazemos por instinto, algumas palavras parecem exalar em sua sonoridade um gosto, uma forma, etc. Quando eu era pequeno tinha uma estranha atração pela palavra alpiste. Não sei explicar o motivo, só sei que pra mim alpiste por assim se chamar deveria ter um gosto bom, muito bom, diga-se de passagem e com certeza seria parecido com um Baconzitos. Eu sabia que era comida de passarinho mas gostava daquela ilusão que pra mim era bastante real. Confesso que me doeu quando finalmente atentei que por mais que eu quisesse, alpiste nunca seria bom de comer e nem se pareceria com Baconzitos. Hoje, nem me preocupo, enjoei de tanto comer o Baconzitos.
O conjunto palavra escrita, símbolo e objeto são bem fortes na nossa construção de Mundo. Porém a repetição de uma palavra faz com que essa perca o sentido. Sapato, Sa - pa - to, Sa, pa, to, sápato, sapatô, sapáto. Como é mesmo? Na verdade não há sentido em sapatos, calças, óculos, hastes. Prince resolveu ser um símbolo, eu quero ser chamado de Guinu e meu casaco é caquicó, nada mais que símbolos, signos inventados. Somos a invenção de nossa raça, somos invenção da invenção de um criador. Criador? Ele criou a dor. Agora me lembro do Tavo que tatuou palavra no braço, ou teria sido palavrá, arvalap, overlap, plic-plac...
Eu não acredito em Feng Shui, ou melhor, sequer conheço profundamente para desacreditar ou não. Sabe sou daqueles que segue a filosofia do ódio consciente, só odeie o que conhecer profundamente. Bom a questão é que o uniforme amarelo com detalhes vermelhos da Romênia na Copa de 94 me dava uma fome do cão! E os nomes tinham um que de comida exótica, Dumitrescu, Popescu, Hagi, que larica! Nomes, nomes são bacanas, nomes me faziam torcer! Sempre fui fã do Camanducaia e do Casiraghi, o primeiro era tosco, mas corria e tinha esse nome fantástico. Hoje, é ex-jogador em atividade, tem idade pra ser meu avô. Já o Casiraghi se aposentou antes que o meu primeiro dente-de-leite caísse, ele jogava na Lazio, time de Mussolini, bela referência. Bom mesmo era comer Lolo, vou tatuar Lolo no meu braço. Não, sou contra tatuagens! Como não tem Lolo, vou de Milkybar.

17 de set. de 2007

Era de Aquarius

Se formos nos informar sobre os grandes expoentes do momento, vamos ver que em sua grande maioria todos buscaram exílios particulares. Isso me faz pensar que realmente esse Mundo não é muito bom mesmo. Mas, convenhamos eles tem culpa nesse cartório. Por gostarem de ostentar essa aura de intocáveis quase castos que não se permitem conviver com os banais, deixam que as forças que não buscam uma melhoria dominarem. Enquanto García Marquez e Galeano, mesmo tendo origem jornalística, preferem silenciar, George Soros da vida palestram por todos os rincões espalhando seus ideais neoliberais. A covardia intelectual deixa a porta aberta para os nefastos corajosos de outras bandas tocarem em alto e bom tom.
Muito fácil é analisar de fora e dissertar sobre todos os erros da humanidade sem acompanhá-la. Por que não viver ao lado dos companheiros? Muito fácil é ser comunista como Niemeyer, tendo muito dinheiro. Isso, claro, não invalida sua genialidade e seu idealismo. Mas com todo o conforto não dói ser socialista. É contraditório mas, com certeza, é muito mais difícil querer o socialismo sendo pobre. Afinal, quem está preocupado com Marx quando se sente fome e não se tem nem um mísero pão dormido para comer. O dia-a-dia nos consome e assim vamos flutuando no que está posto.
O Tom Zé diz que o trabalho deve ser a grande paixão do homem, queres algo mais alienante? Acho que não! Mas o Tom tem razão. O trabalho nunca te trai, nem te surpreende, é algo mecânico, calculado, com a rotina bem definida e essa obsessão te leva a um nível de excelência a certo ponto que tu consegue gozo em algo tão espúrio quanto o trabalho, tem-se aquela sensação de leveza, de fluidez de pensamentos, aquele estágio orgásmico sem sê-lo. Ao atingir a felicidade com algo tão pequeno o ser rompe com suas agruras para viver livremente em êxtase inconcebível, reprovável. Porém, recompensador para uma alma perdida em desilusões. Tudo parece fantasia quando perdemos o senso crítico e nos despimos da vontade em buscar algo melhor para o todo. Afinal, temos que relembrar o amor próprio e nos entregar para nós mesmos. Depois, não, não há depois. Os alquimistas estão chegando...

12 de set. de 2007

Superstar Suicide

Vontades que vêm do nada. Nunca imaginei que eu subitamente fosse tomado da irremediável necessidade de sair de casa e tomar um ar puro. Logo eu, um defensor contumaz do concreto, do urbano, dos apartamentos. Um cidadão claramente contra praias, matos, animais, etc. Mas algo me sufoca e preciso sair daqui. Só me resta um chuveiro rápido, umas roupas leves e uma caminhada até à redenção. Preciso pensar um pouco, espairecer, evitar a rotina da ilusões.
Debaixo de uma chuva de rosas roxas caminho tranquilamente. Porém, ainda me falta a serenidade para as devidas reflexões. Acho que é por medo de descobrir coisas que eu sei e não admito. Esse ambiente que cheira a bucolismo tem paisagens agradáveis que acalentam as almas mais vis.
Passo a passo e eles não dizem nada. Eu sigo sem saber os meus porquês. Sai de mim letargia, xô! As palavras não fluem naturalmente seja via oral ou através da digitação. Não sei o que se passa. Meus pólos que viviam em conflito desistiram da batalha. Ele venceu, o triste venceu, não há mais sorrisos, nem choros, só há o blazê, o sem sal. Sei que os problemas estão em mim. Eu só queria te encontrar te tirar aí do fundo e pegar na tua mão para te ver feliz. Eu ti vi cantar, pular, torcer, sentir, viver. Sai da morte, sai nenêm. Por favor, por nós! Me salva como sempre. Me tira do desencanto.
Obstinação e garra, o que eram características, agora são estranhos. Parecem aqueles primos do interior que tu uma vez a cada cinco ou seis anos. Demora tanto para o reencontro que você esquece que eles existem. Devolva minha língua, recarregue minha caneta, encha o meu copo.

6 de set. de 2007

Rádio

Sentado em um dos bares da rua da praia tomando sua cerveja calmamente. Na verdade, mais preocupado em observar aqueles que por ali passam. Como de costume enquanto bebe, lê. Esse vai ser mais um livro que não vai terminar, vai ler um capítulo, talvez dois e parar. Ele se deixa ficar preso por uma metodologia criada por si próprio e essa amarra conduz seu dia-a-dia que não faz jus a sua capacidade. Absorto em pensamentos ele quase não pensa no que vai responder pro garçom, seu velho conhecido, sósia do irmão daquele cara que eu sei, ele sabe, tu sabe e vocês não sabem.
Ainda se pergunta por que traiu sua ideologia por causa de uns trocados. Mas afinal, o que essa ideologia lhe deu? Dor, só dor. Seu mundo é impossível e nem aqueles que supostamente defendem o seu mundo lhe ajudaram. Por vileza do destino só seus inimigos lhe estenderam a mão. É sempre assim! Não consegue respostas, erra e sabe por que. Mas não muda. O que está acontecendo? Por que a derrota, se a vitória seria tão fácil? Talvez, seja a necessidade de fazer humor com sua própria tragédia, deve ser por isso esse momentos comédia pastelão.
Amanhã nada vai ter mudado, vai chegar em seu trabalho, em cima do horário como de praxe e repetir seu discurso ensaiado quando fizer a tradicional saudação comicamente ameaçadora que faz tremer os homens de pouca fé! Sua carga horária se destina a cumprir seu papel. Ser apenas mais um personagem desse cotidiano à lá Praça é Nossa. Personagem essa que um dia interpretou por acaso e não mais conseguiu se livrar da maldita. Maldita, mardita! Sempre ela! Se não fosse a cachaça... Medo de vencer nos impede de ganhar.

28 de ago. de 2007

Colóquio Repentino

Lá pela qurta cerveja...

- Sabe, tava pensando esses dias no meu ideal de morte. Não, não é nada de papo suicida. Mas só uma viagem de como gostaria de morrer...Tu gostaria de morrer como?
- Ah, dormindo, ora. Sem sofrimento para mim e pros outros. De quebra ainda morro com uma cara serena, com uma certa dignidade.
- Como se a tua cara póstuma fosse enganar alguém!
- Ah, não fode!
- Mas, na boa, que chatice, morrer durante o sono, por favor! Eu quero morrer num acidente de carro, algo trágico, espalhafatoso, causar comoção!
- Ah, por que eu sempre começo as frases por ah, ?, Na real isso aí é só mais um traço da tua megalomania.
- Pode ser, mas o que eu quero é glorificação. Essa vida não vale de muito, dificilmente vamos marcar nossos nomes acho que uma morte traumática seria o ideal para uma perpetuação...
- Não fala merda. A morte deve ser nosso descanso, se morrer assim, quando muito vai mostrar que era mais um inconsequente dirigindo pinguço por aí.
- Tá mas ouça o meu plano B. Talvez, tu goste. O - VER - DO - SE! Em mais uma farra uma cheirada depois de beber e queimar tudo e pronto, morro felicíssimo da silva. Por sinal, eu não me conformo em nunca ter cheirado.
- Putaquepariu! Começou tudo outra vez!!! Tu não tem jeito né? Será que toda aquela maconha e o LSD não foram suficientes? Quem tu conhece que tenha usado e abusado de drogas e seja bem sucedido?
- Ah, o, o, o Wesley Snipes!
- Não, um cara branco porra!
- O Wesley Snipes? Tá, mas eu não sou o que pode se chamar de um jovem mal sucedido, posso?
- Depende de qual ângulo vamos analisar...Grana, talvez não. Mas acho que tu não quer que eu fale do teu problema com relacionamentos, quer? E nem tô falando de namoro e sim de qualquer relação interpessoal. Eu sou um dos teus poucos amigos e sei que não dá pra encher uma mão com os outros...
- Ah, mas vivemos numa era de poucas amizades...
- Isso é desculpa, tu não faz nenhuma questão em ser bacana, em tentar ser simpático. De vez em quando um sorriso na cara não faz mal, viu?
- Ah, tá bom, tá bom. Vamos descer mais uma?
- Vamo!

26 de ago. de 2007

Rousseau

O sol ilumina aquela tarde de quase quarenta graus. Enquanto isso, o rio segue seu curso tranquilo, lá Tapuia se banha para tirar o cansaço pós-caçada. O Índio que nem é velho, nem é moço, está no meio do caminho, está satisfeito por ter garantido a comida por um bom tempo ao abater uma simpática onça que jaz há alguns metros da água límpida que o purifica. Calmamente passa a mão pelo braço esquerdo, depois pelo direito, pelas pernas e assim segue retirando o sangue jorrado pelo animal quando da batalha dos fortes contra os fracos.
Terminado o banho sua pele seca ao natural devido ao calor que só aumenta. Tapuia talvez não saiba mas agora são 13 horas. Sua lança, objeto de orgulho e de trabalho, passa a ser a peça central do dia de Tapuia. Curiosamente a dedicação em limpar sua companheira é muito maior do que no próprio asseio, o que antes era um instrumento quase rubro devido ao acúmulo de sangue parece estar novo em folha recobrando sua coloração amadeirada natural.
Lança limpa na mão e alimento às costas assim ele seguiu sua marcha rumo ao encontro da tribo. Sim, aquela mesma velha tribo, com as mesmas pessoas de sempre e os mesmos rituais de todos os santos dias. Lá chegando, começa a carnear a onça para em seguida assá-la. Depois de feito isso, o beijo na testa amargurada de sua Iracema (sua Iracema! Não aquela chata do José de Alencar!!!). Tudo o que ela queria era uma comunidade de crianças para criar. Mas alguma maldição, algum trabalho em alguma encruzilhada qualquer ou excesso de canabbis sativa lhe impedem de ter um rebento sequer. Mas afinal para que servem os filhos? Para comer em um buffet quando você passa mal?
Chega a noite Tapuia e Iracema não fazem mais sexo. Então, ligam a televisão para ver a novela das oito. Incoerência? Eles também merecem se alienar.

21 de ago. de 2007

Língua de Sogra

O meu remédio favorito para cicatrizar feridas sempre foi o álcool, deve ser por isso que no sábado comecei a ingerí-lo logo a uma e meia da tarde. Tá certo que o álcool sempre de uma forma ou outra é encaixada na minha rotina, não existe papo sem ele, não existe festa, comemoração, etc. Bom, nesse sábado eu estava precisando mesmo...Fazia muito tempo que não ficava um sábado inteiro longe de casa, mas não tinha outro jeito. Felizmente, depois de alguma procura encontrei quem me acompanhasse no tradicional ato de afogar as mágoas. Andando meio cabisbaixos pela Cidade Baixa, notamos que não há bares abertos. Então, fomos pra Lanchera. Atravessar a Redenção em um dia chuvoso é de fazer o mais valente tênis tremer, pobre Puma surrado.
Conversa vai, conversa vem e eu provando mais uma vez meu dom em consolar os outros. Sim, eu numa merda, consolando outra pessoa, típico. Eta nuvem negra! Bom não posso reclamar, o papo foi bom, muito bom. Até risadas dei! Logo eu que não mostro muito os dentes. Fui apresentado a uma agradável livraria ali na Garibaldi, quase no Pietro, um ambiente classsicamente pseudo-intelectual, casinha de madeira, livros novos de editoras estranhas, som bacana, mesinha para chá, etc. O problema de quando fico mal é que meu lado consumista aflora. Saí mais pobre do recinto, fazer o que? Afinal, não posso dispensar um Kerouac novo - uma peça - um Caio Fernando e claro um Fante.
Às vezes coisas parecem cair do céu. Eu em uma festa de criança? Pois é, que momento interessante. Voltei alguns anos no tempo e lembrei dos meus aniversários. Retornei a realidade e vi aquela vivacidade infantil, fiquei entusiasmado ao ver um coloradinho uniformizado dos pés a cabeça, a número nove às costas, taí o nosso artilheiro para a segunda década do milênio! Lá pelas tantas me pego em uma vibrante disputa de vôlei, um contra um, com balão rosa. A garotinha simpatizou comigo, fico um tanto quanto perplexo. Pois, pensei que a minha maldade e rancor fossem indisfarçáveis...Me lembro dos bons tempos de piá, nos quais minha vó, mesmo muito doente, em seu leito, me fazia correr de um lado para o outro numa brincadeira semelhante.
Aos poucos a agitação diminui, as crianças aquietam, as mães suspiram aliviadas e eu volto para downtown, só passo em casa para pegar a grana e um pedaço de pizza. Táxi para que? Vamos a pé, é pertinho! Mais umas cervejas, algumas risadas, alguns silêncios constrangedores e doídos e, também, agradáveis encontros surpreendentes. Depois de filas, indecisões e pernadas e afins e etc e tals, entramos em uma noite qualquer com músicas que não tocam ao meu coração ou minha mente eternamente lisérgica...Basta uma pequena parada para que fique remoendo o que me atormenta, sem clima para festa vou embora. No fim, valeu a pena, um sábado que não foi perdido, mesmo que às quatro da manhã esteja em posição fetal com lágrimas nos olhos.

19 de ago. de 2007

Murió

Lá estava ele, compenetrado em sua eterna reclamação, ninguém me nota, ninguém me quer, ninguém me olha, ninguém fala comigo. Ele não percebe mas está se excluindo, se tornando insuportavelmente chato, ao ponto de acabar com qualquer sentimento que alguém por ele pudesse nutrir. Nada mais faz e por óbvio não tem nada a dizer, seus diálogos se repetem, sempre em tom depressivo de total desilusão e com séria dificuldade de exprimir o que realmente está sentindo. Passa os dias como se fosse um moribundo zumbi, até seus irrefutáveis dons estão opacos, ofuscados por sua terrível falta de vontade de viver.
Sua cara de pau é tanta que mesmo sem nunca ter um sorriso para dar, sem ter uma palavra bonita para dizer, sem ter a capacidade de empatia com os outros, quer que estes o tratem bem, como ele acha que merece. Ele quer ser amado sem amar, ele quer ser notado sem notar os outros, ele quer reconhecimento sem merecê-lo. Muita pretensão para quem pouco faz a não ser resmungar pelos cantos e chorar internamente. Todos tem problemas mas para ele só o seus importam.
A inércia desses últimos tempos já lhe custou muito, lhe custou amigos, festas, dias de felicidade no estádio Beira-Rio, etc. Até o golpe fatal vir nada lhe fez despertar para o problemas consigo mesmo. Finalmente o tapa seco em sua face fez acender o alerta vermelho, talvez seja tarde demais. Mas ao fim e ao cabo ele percebeu que ninguém olha para quem está morto. Portanto, só lhe resta viver...

12 de ago. de 2007

Epaê

O final de semana está terminando e cá estamos nós altamente compenetrados em nosso compromisso jornalístico, já faz cinco dias que nos encontramos nessa pousada e a fumaça no ar de maneira alguma diminui a seriedade de nosso trabalho. Apesar de fazer um belo dia estou enxergando tudo cinza, estou ouvindo a batucada que ele faz, seus uivos primitivos me confirmam a idéia de que ele é um elo perdido entre Xapanã e os aborígines da Austrália. Não entendo exatamente o que está acontecendo, só sei que nós cinco estamos conectados por essa sinfonia animalesca, ou talvez, isso seja tudo viagem do absurdo consumo de canabbis dos últimos minutos, segue a batucada e os outros esmurrugando, eu só fecho e toco fogo, fazendo fumaça.
Que alívio sinto em minha alma desprovida de bons sentimentos, estou livre para odiar, me sentindo uma diva, meus braços flutuam no ar comemorando os dias comuns em que ninguém é especial. Como sou belo, pareço um retrato esculpido por Deus. Ah, coitados estão tão abaixo de mim, pobrezinhos. Mas não tenho pena, não merecem. Pobres mortais não merecem a piedade de entidades superiores. É impossível acreditar que ele siga invocando os espíritos malignos da liberdade, por que ele faz isso? Chega! A grande verdade é que estou cansado de ser quem eu sou, sem sequer sentir vergonha de ser assim, me impressiona minha própria disfaçatez. Quem diabos eu penso que engano? Eles sabem, eu sei que eles sabem e finjo não saber.
Não, eu não consigo ser uma boa pessoa, eu não consigo ser corajoso, eu não consigo ser homem, eu não consigo ser nada. É o fracasso potencializado sabe-se lá em quantas vezes. Já me perdi em todas as bocas, já não ouço mais nada, me sinto violado, usado, sujo. Mas mesmo assim sigo inerte. Não consigo nem limpar minha face, sequer posso juntar minhas mãos para pedir o supremo perdão. Logo eu que sempre te neguei, cá estou de joelhos, te pedindo clemência. Me desculpe, mas por favor, me purifique...
Ah, acho que no final das contas isso é só a falta de uma boa transa.

5 de ago. de 2007

Não Era Dose Dupla

Depois que a goteira seca é que nos encontramos de verdade, nós dois podemos perceber quem somos e se realmente gostamos um do outro. Quando a luxúria cessa, nos resta a conversa, aí mora o perigo. Afinal existem pontos em comum? Ou teremos que conversar sobre coisas que não podemos mudar trabalho, dinheiro, pessoas, etc. Aqueles momentos pós-êxtase são bastante estranhos, não é a toa que muitos se viram e põem-se a dormir, depois do clímax resta algo? Deve ser por isso que os casamentos andam em crise, se baseiam no sexo e convenhamos quem sente real atração por pessoas pelancudas, gordas, desgastadas pelo tempo...
É, por isso, que eu não durmo e não te deixo dormir, preciso saber de ti, saber de nós. Não quero ser um retrato que nunca envelhece e, portanto, tenho que saber se queres algo mais, se consegues dar algo mais, ser mais do que movimentos, mordidas, beijos e libido. Já tive quem nada me acrescentasse, já teve quem me encantasse mas não causasse desejo físico e, até mesmo, quem tivesse sabor fantástico mas de conteúdo opaco. Por isso de ti nunca esqueço, foste tudo, o antes, o durante e o depois. A diversão como deve ser, lúdica, quase infantil, com uma conexão além do químico, beirando o esoterismo. Na conversa não há assunto que não possa desenvolver e melhor de tudo tens opinião, não és mais uma, és única.
Agora só queria tomar um chá e dividí-lo contigo para depois passear nesse friozinho provinciano que encanta, andar por esses parques tipicamente portoalegrenses abraçado contigo, sem ter hora para voltar, sem ter para onde ir, sem obrigações despidas de vontade. Mas não é possível, estou aqui longe, bem longe, trabalhando em uma causa infundada, em uma casa funesta. Quando tiver um tempo vou ler alguma coisa útil, só para não ficar com a impressão de que esse Domingo foi em vão...
Por entre os buracos da cortina me encanto com essa vista bucólica, esse frio de mármore e essa saudade que me dói.

1 de ago. de 2007

C-3

É impossível escapar do paradoxo destino/acaso, quem nunca pensou nisso, quem nunca se introjetou nesses pensamentos? Mas aquele abraço fraterno, aquele encontro surpreendente, aquele carinho inesperado de onde vieram? Combinado não foi, é claro. Mas seria realmente obra de algo maior, não sei, provavelmente não. Isso somos nós que precisamos justificar tudo, criar um sentido na rotina que passa e nos leva sem paradas ao fim que não desejamos.
Maior do que isso, é tentar descobrir o que afinal é vida. Tudo parece tão inadequado. Então, o que é vida? O que é viver bem? Diante da letargia me parece que só queremos afeto e, é isso que buscamos, por vezes de forma bem inquietante, numa antítese do que queremos. Quando os dias se tornam cinzas é impossível diferenciar o bem do mal, é difícil pensar, reagir, atacar, etc.
Por vezes me sinto um passageiro de mim mesmo, de minha existência que no momento parece sem sentido. Nada vem para motivar, nada melhora nem piora, simplesmente não muda. Tudo é igual, indiferente para mim. Assim vou, me acordo mesmo não querendo, levanto, vou trabalhar, estou aqui, volto pra lá, vou pra casa, evito sair, sair pra quê? Janto, não sinto gosto, engulo como quem come papel. Monossilabo um pouquinho para manter as aparências. Até sermão dos mudos ouço. É, não tem como ficar pior, durmo, não me acordem...

14 de jul. de 2007

1987

O despertador toca, sua mulher levanta, ele fica lá fingindo que dorme. Afinal, para que acordar? O sol nem deu as caras para comemorar seu quadragésimo aniversário e ele já está prestes a se atrasar para seu trabalho, sim aquele mesmo trabalho, aquele que remonta a sua adolescência. Ele não pensava que seria assim, que acabaria onde começou, que continuaria ganhando um salário de miséria. Pois, lá não existe aumento, sua sorte se é que pode ser assim denominada, são os reajustes do mínimo. Mas não é o trabalho seu único incômodo. Aquela gorda com quem divide as cobertas também é um estorvo. Pensando bem, mesmo que fosse uma deusa televisiva, seria por ele odiada. Sofre! Quem mandou ser covarde? Agora fica aí remoendo seu amor nos pensamentos, se tivesse coragem de ter ido atrás dela não estaria se lamentando neste instante. Como ele está há mais de cinco minutos na cama além do que deveria, a essas alturas, a gorda está com a mesa posta e o piá (com aqule marra característica da puberdade) deve estar comendo, como de costume, igual a um ogro. O guri foi uma felicidade quando nasceu. Mas só quando nasceu! Por que ele não podia ser puto, ser nazista, filiado ao Democratas, sei lá, fã do Galvão Bueno. Porém, o vermezinho, é GREMISTA! Para piorar a situação eles são campeões do Mundo (pela quinta vez! Isso, sem contar a friagem da Toyota), já o Internacional dele se esforça pra ganhar do Zequinha e a sala de troféus não é aberta desde 2007, quando ganharam a Recopa (dia mais feliz da vida dele!).
Depois de vinte minutos o pobre infeliz resolve finalmente se levantar, vai ao banheiro, faz a barba com cuidado, com barbeador manual, sem frescuras, assim como era nos bons tempos da primeira década do século XXI. De banho tomado ele adentra a cozinha, o piá com um enorme sorriso no rosto - e vestindo a camisa do Grêmio - lhe abraça com toda a força, aquele abração de Urso. Diz pro pai que o ama. As lágrimas escorrem na cara do filho da puta emocionado com o rebento. A esposa os abraça também e envolve o marido com uma seqüência cinematográfica de beijos apaixonados. Depois, lhe mostra o café da manhã especialmente feito, com direito a bolo, vela, etc. Todos sentam se servem e choram, o guri e a mulher de alegria, ele por odiar aquilo e por se odiar por não conseguir amá-los.

7 de jul. de 2007

Mãos (Recuerdos escolares)

Não fosse a demagogia, a incompetência e o fisiologismo de nossos governantes, essas preciosas mãos poderiam tudo, tocariam da mais singela folha caída no outono até a mais bela joiá, abraçariam a pessoa amada sempre, como se fosse a última vez, pois quem já perdeu alguém sabe que a dor é incomensurável.
Talvez, não tivesse uma vida de contos de fada. Mas, pelo menos, teriam a chance de suar e ganhar calos em busca de uma existência digna.
Ah, se tivessem dado chance para essas mãos, se elas tivessem a oportunidade de estudar, de brincar, se cortar e curar, como deveria ser praxe a todo ser humano.
Onde estão nossos representantes, que deveriam proporcionar essa chance a todos que recebem a vida, eles nos enganaram como sempre, com suas vãs promessas e seus prolixos discursos que não dizem nada. Mas essas mãos quando libertadas não vão se calar, lutarão e farão protestos pelas ruas pedindo um Mundo mais justo, com uma justa distribuição de renda.
Eu verei aquelas mãos triunfarem em meu camarote, que fica debaixo da ponte e lá darei um efusivo aperto de mãos para essas guerreiras.

PS: Bons tempos nas aulas de redação do colégio. Eu sempre soube que tinha algo errado. Mas era idealista. Hoje, sou cético....

4 de jul. de 2007

Rotina de Ilusões

Tudo já foi feito, já foi escrito, já foi dito. O que nos resta afinal ? Estou em um momento da vida em que me questiono por tudo, principalmente me persegue a eterna indagação de se vale a pena, ou não, viver desta forma ? Acho que já é mais do que hora para repensar o ritmo impresso por nós mesmos contra nós mesmos.
Talvez seja a hora de retrair, diminuir a tecnologia, rever o conceito de trabalho, acabar com os mitos e com os ídolos. Temos que nos aceitar como seres primordialmente maus, só assim viveremos em paz com nossa própria natureza. Chega desse jogo sujo, desse ódio velado, dessa compaixão falsa. Vamos jogar fora nossas muletas, vamos acabar com a Internet, vamos esquecer da TV a cabo, do Playstation, etc. Por favor acordem ! Desistam de ler esse post quando estiverem na metade, não por terem achado ruim e sim por perceberem que estão morrendo em frente a uma máquina que separa. Uma máquina que te coloca em uma rede que só serve para consolidar e glorificar as ligações fortes. A Internet está aí com um claro objetivo: Acabar com tudo que é epidérmico !
Grande parte do texto não é meu por excelência, é uma confusão de tudo que já foi dito, escrito, contado na mesa de jantar das famílias do século XIX, por aí vai...O que me apavora é que nada aprendemos ou se aprendemos preferimos não aplicar os conceitos percebidos. Acho que é culpa da preguiça, do medo de ser realmente feliz, de se aceitar, se permitir. Como é possível o Anticristo datar de pré-1900 e ainda existirem católicos. Pior, agora temos evangélicos e outras deturpações do já nefasto império religioso romano. Quando diabos as massas vão abrir seus olhos cansados de trabalhar para a invenção de Deus. Se a igreja católica dissese que Deus é uma cadeira de balanço roxa com bolinhas verdes, teriamos uma réplica gigante em algum ponto turístico do Rio de Janeiro ! Deus é a maior enganação criada para controle de massas. Mas não posso culpar quem o criou. Pois, infelizmente, o ser humano é demasido fraco (humano) para se manter vivo por si só. São poucos os que tem capacidade para entrar em tais questionamentos sem ceifar a própria vida. Trata-se de um exercício duríssimo que beira o masoquismo, mas no final liberta. Não liberdade plena (outro mito !), apenas aquele sentimento de: eu sei que isso é impossível e não tenho vergonha do meu egocentrismo.
Pro intuito do blog, talvez este texto esteja longo. Porém, para a discussão que deve ser aberta, isto aqui não passa de um início de prefácio de um livro de lamento, que não necessariamente vai envolver bares, botecos, butequins, etc.

1 de jul. de 2007

It´s Deja Vu All Over Again

Essa frase do impagável Chris Berman demonstra bem toda a genialidade dos estadunidenses. Mas, realmente, tudo é tão repetitivo que uma redundância não faz mal a ninguém. Tipo canja de galinha, manja? O ser humano não se cansa de se decepcionar e de decepcionar aos outros. Estamos fadados a filhadaputice. Hobbes que o diga.
Não tem escapatória, um dia o teu grande amigo vai enfiar uma vara de 35cm no meio do teu cu e não vai se sentir nem um pouco culpado. Tu também já fizestes isso não se faça de hipócrita. Tudo depende da tolerância. Se formos nos guiar pela retidão. Bem, azar, você vai odiar todo mundo. Com isso, nos resta a hipocrisia, o tapinha nas costas, o bruxismo, a bebida, o dinheiro, etc. Na hora do bem bom somos todos felizes para sempre. Na hora ruim nos resta nossa própria mente doentia.
É tão difícil, mas tão difícil, ter de se aturar. Nada mais desafiador do que passar uma tarde de sábado em casa arrumando as tralhas e se embebedando em pensamentos e Patricias. Não, nenhuma Pati ronda meu coração, tô falando da loira uruguaia!!!
Ao final dos tempos nos resta o ódio e o amor para com aqueles que nos foram úteis, úteis no final. Pois, todos os outros eu nem lembro mais. Ah, tem também os malditos parentes, que por mais idiotas que sejam, são impossíveis de ser apagados de nossa memória. Maldita falta de coragem!

26 de jun. de 2007

Xará

Fazia anos que não trocavam uma palavra sequer quando se encontraram na rua, sim aquela rua, aquela mesma rua que os viu beber juntos, cantar juntos, chorar juntos, etc. Tudo juntos como fazem os grandes amigos, tão amigos que até parecem um casal. O mais engraçado é que agora ao passar por esse fantasma não me lembro minimamente do motivo que nos fez brigar, não sei se foi por causa de mulher, de bebida, de jogo, de dívida, de futebol, de maconha, de puta, sei lá...
Mas é claro que foi algo muito forte. Só pode ter sido, não brigaríamos desta forma se não fosse por um motivo extremo, tão extremo que não consigo fazer com que ele perpasse meu consciente de forma alguma, tem que ter sido algo forte, muito forte...foi forte, né?
O bom dos seres humanos é isso, tudo é muito intenso, mesmo não sendo. Assim como nossa briga foi intensa, meu primeiro amor o foi também. Tá certo, hoje não lembro o nome dela, não lembro se era preta, amarela, branquela, se tinha tetas grandes ou uma bunda grande, etc. Mas com certeza não era magrinha, apesar de eu ter uma leve queda por palitos ambulantes...
Dez minutos depois de ter te visto e aindo me atormenta ter te visto...
Idéias cíclias, fantasmas vivos, vida não vivida.
Ainda bem que foi por um motivo forte, muito forte!

19 de jun. de 2007

Toda criança tem que ler e escrever...

Acorda
Bebe
Cheira
Destrói
Exclui
Fomenta
Grava
Hiato
Introverte
Joga
Ludibria
Manipula
Normatiza
Oportuniza
Produz
Quantifica
Rebusca
Sincretiza
Tormenta
Umbanda
Valoriza
Xintoísmo
Zaratustra