Fevereiro
Estou observando a minha vida no espelho. Ossos fortes, traços firmes, rugas, trapézio, barriga desleixada, cicatrizes. Algumas cicatrizes não são visíveis ao olho do ser humano, mas, estão ali.
Fevereiro, existe algo nisso que me incomoda, o mês de fevereiro. Talvez por ele ser tão peculiar entre os doze. E ser tão diferente entre doze semelhantes, é algo louvável e intrigante. Fevereiro tem a vida curta, porém, não menos intensa. Nada impede que grandes acontecimentos ocorram entre seus 28 ou 29 dias. O mês que nos deixa mais velhos, com eficiência e rapidez impressionantes.
Eu a conheci logo após a Bianca. Mas, lembro ter me apaixonado muito depois. Sim, lembro do exato momento em que me apaixonei. Mas não uma paixão boba, passageira. Uma paixão intensa, um amor verdadeiro e incondicional. Talvez, o sentimento mais puro e genuíno que um dia terei. Alguns podem dizer com quantos anos ou em que época de suas vidas sentiram o amor pela primeira vez, pouquíssimos podem determinar com tamanha precisão, quase que cirúrgica, o momento em que PERCEBERAM que estavam de frente a um dos sentimentos mais assustadores e dolorosos da vida de qualquer ser humano. Eu sei quando me apaixonei, eu estava lá!
Terceira série. Descia as escadas do colégio, ia beber água. Ela na cantina, esperava a merenda. Algo de estranho acontecia, eu olhei para ela, em sua calça de abrigo, cabelos castanhos lisos e olhos que mudavam de cor, e eu sentia algo diferente. Estava nervoso pela primeira vez perto dela. Uma amiga comum, de todos os dias e de tantas brincadeiras e brigas. Deveria continuar em frente, mas, algo me disse para ir beber água. Eu o fiz, e olhei novamente para ela. Seu sorriso fez meu coração pulular, minha respiração estava mais forte, senti uma eletricidade em todo o meu corpo, uma adrenalina.. o que haviam colocado naquela maldita água?!
Enfim, ela me chama. Pede ajuda com sua mochila. Os poucos anos seguintes, que muito se passaram, maravilhosos.
Tudo isso por causa de alguns segundos. Os segundos, tão displicentemente menosprezados, me marcaram muito mais do que 22 anos. O que daria para voltar aqueles poucos segundos, onde senti que estava vivo e pensava que tudo ia ficar bem.
Sinto sua falta, miss Fevereiro.
3 de fev. de 2009
3 de jan. de 2009
Miss Janeiro
JANEIRO
Não sei pontuar a minha lembrança mais remota. Muito menos, a minha paixão mais antiga. Apenas, posso teorizar sobre o assunto e tentar descrever da melhor maneira possível. Os fatos e a ordem deles não ocorreram assim, mas, é como eu me lembro deles (não será preciso citar a frase de Ethan Hawke sobre os chavões novamente, certo?).
O nome dela é Bianca. Era minha vizinha de apartamento. Lembro muito pouco dela, do seu rosto, da sua voz e o que fazíamos. Lembro que tinha um cabelo escuro e longo, que o prendia com um rabo de cavalo. Mas a maneira que a descrevo, pode ser completamente mentirosa, quão acostumado estou com as peças que minha mente me prega e constantemente me traí.
Lembro de estar levemente apaixonado e não saber o que sentia. Uma vez, no terraço do prédio, perguntei inocentemente se ela me aceitava como seu namorado. Lembro que a resposta nunca veio. Lembro não ter ficado incomodado, nem ter tocado mais no assunto. Embora isso tudo possa ser mentira, quem poderá saber?!
Certa vez, ela havia ganho uma pasta de dente. Para mim viria ser uma novidade impressionante. Não era um pasta Colgate, isso já seria uma das coisas mais impressionantes (existiam outras pastas de dentes!). Era uma pasta Tandy, tinha um esquilo desenhado no tubo, o sabor era de morango. Lembro disso apenas por que ela, na inocência de uma criança, tinha lambuzado o dedo e me dado para provar a pasta. Talvez ela me visse como um irmão mais novo (ela tinha um ano a mais que eu) ou talvez não.
Como todo bom relacionamento; brigas! Nossa briga mais marcante foi no quarto dela. Estávamos brincando, eu tinha um urso e ela um palhaço de plástico que ria quando se dava corda. O motivo da briga? Não recordo. Apenas lembro de estar puxando freneticamente a corda do palhaço até ela não voltar mais, ela gritava e rasgava as orelhas do meu urso. Eu joguei o palhaço na parede, o que fez ele se desmontar. Mas ela só chorou de raiva, quando eu arranquei meu urso das suas violentas mãos, mãos torturadoras de pelúcias, e fui embora batendo a porta de seu apartamento. Algumas horas mais tarde estávamos no parque, convivendo, como se nada tivesse acontecido.
Janeiro, é o mês das novidades. Mesmo que as novas estejam velhas, é a oportunidade de conhecer e tentar (até buscar), pelo novo. Talvez, nesse caminho, consigamos nos descobrir enquanto lambemos as feridas dos meses passados.
Ou talvez não.
Não sei pontuar a minha lembrança mais remota. Muito menos, a minha paixão mais antiga. Apenas, posso teorizar sobre o assunto e tentar descrever da melhor maneira possível. Os fatos e a ordem deles não ocorreram assim, mas, é como eu me lembro deles (não será preciso citar a frase de Ethan Hawke sobre os chavões novamente, certo?).
O nome dela é Bianca. Era minha vizinha de apartamento. Lembro muito pouco dela, do seu rosto, da sua voz e o que fazíamos. Lembro que tinha um cabelo escuro e longo, que o prendia com um rabo de cavalo. Mas a maneira que a descrevo, pode ser completamente mentirosa, quão acostumado estou com as peças que minha mente me prega e constantemente me traí.
Lembro de estar levemente apaixonado e não saber o que sentia. Uma vez, no terraço do prédio, perguntei inocentemente se ela me aceitava como seu namorado. Lembro que a resposta nunca veio. Lembro não ter ficado incomodado, nem ter tocado mais no assunto. Embora isso tudo possa ser mentira, quem poderá saber?!
Certa vez, ela havia ganho uma pasta de dente. Para mim viria ser uma novidade impressionante. Não era um pasta Colgate, isso já seria uma das coisas mais impressionantes (existiam outras pastas de dentes!). Era uma pasta Tandy, tinha um esquilo desenhado no tubo, o sabor era de morango. Lembro disso apenas por que ela, na inocência de uma criança, tinha lambuzado o dedo e me dado para provar a pasta. Talvez ela me visse como um irmão mais novo (ela tinha um ano a mais que eu) ou talvez não.
Como todo bom relacionamento; brigas! Nossa briga mais marcante foi no quarto dela. Estávamos brincando, eu tinha um urso e ela um palhaço de plástico que ria quando se dava corda. O motivo da briga? Não recordo. Apenas lembro de estar puxando freneticamente a corda do palhaço até ela não voltar mais, ela gritava e rasgava as orelhas do meu urso. Eu joguei o palhaço na parede, o que fez ele se desmontar. Mas ela só chorou de raiva, quando eu arranquei meu urso das suas violentas mãos, mãos torturadoras de pelúcias, e fui embora batendo a porta de seu apartamento. Algumas horas mais tarde estávamos no parque, convivendo, como se nada tivesse acontecido.
Janeiro, é o mês das novidades. Mesmo que as novas estejam velhas, é a oportunidade de conhecer e tentar (até buscar), pelo novo. Talvez, nesse caminho, consigamos nos descobrir enquanto lambemos as feridas dos meses passados.
Ou talvez não.
20 de nov. de 2008
O caçador de pererecas
“O mestre das respostas vazias”, toda vez era assim. Ela me olhava, aqueles olhos verdes, aquele cabelo liso, aquele rosto angelical e delicado, aquela vagabunda desgraçada. Talvez a única coisa que fazia com perfeição era justamente, me irritar. Era boa em decifrar as charadas e perceber quanto de mentira eu dizia em cada mastigada e goles. Era uma pessoa muito difícil de se conviver, aquela piranha. Uma coisa que aprendi muito tempo atrás quando caçava pererecas, é que as coisas não são tão difíceis quanto aparentam ser (ou pelo menos não devem).
Tinha uns sete anos, quando percebi a incrível facilidade de capturar pererecas. Sim, tão fácil que chegava a ser ridículo. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Só. Tem gente que usa rede, tem gente que usa iscas, tem gente que se embrenha no mato. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Ia no pátio dos fundos de minha velha casa e levantava algumas cascas de árvores podres que mantinham a umidade em seu fundo. Sempre estava lá, a perereca. O segredo é ter calma em todos os teus movimentos, não bastava apenas saber mexer nas tábuas da forma apropriada, é saber que para prender a perereca será necessário aproximar o tubo por trás dela, pronto! Uma nova prisioneira acabara de nascer.
Caçar moscas para alimentação da perereca, também uma missão ridiculamente fácil. Eu só precisava de uma tampa de ralo. Às vezes eu jogava tantas moscas de esgoto no tubo que a perereca simplesmente cansava-se de pensar em fugir e ficava ali, inerte olhando as moscas baterem no tubo e algumas tomadas por uma letargia incrível, ou por simples instinto suicida, pousavam na perereca e ali descansavam suas asas. O difícil era manter uma perereca feliz. Mesmo com toda a minha atenção e dedicação, aquilo apenas era uma patética figura de algo que um dia poderia pensar, sobre qualquer coisa que envolveria o espírito de uma perereca. Então eu soltava a infeliz e procurava outra que mereceria o meu cárcere, mas, pererecas não nasceram para ser presas. Quanta ironia! Ela, a perereca, a mais fácil de ser caçada e a mais difícil de ser agradada.
E então vem ela, não conhecedora da obra de arte que é caçar pererecas, me chamar de “mestre das respostas vazias”, quanta ousadia!
Tinha uns sete anos, quando percebi a incrível facilidade de capturar pererecas. Sim, tão fácil que chegava a ser ridículo. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Só. Tem gente que usa rede, tem gente que usa iscas, tem gente que se embrenha no mato. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Ia no pátio dos fundos de minha velha casa e levantava algumas cascas de árvores podres que mantinham a umidade em seu fundo. Sempre estava lá, a perereca. O segredo é ter calma em todos os teus movimentos, não bastava apenas saber mexer nas tábuas da forma apropriada, é saber que para prender a perereca será necessário aproximar o tubo por trás dela, pronto! Uma nova prisioneira acabara de nascer.
Caçar moscas para alimentação da perereca, também uma missão ridiculamente fácil. Eu só precisava de uma tampa de ralo. Às vezes eu jogava tantas moscas de esgoto no tubo que a perereca simplesmente cansava-se de pensar em fugir e ficava ali, inerte olhando as moscas baterem no tubo e algumas tomadas por uma letargia incrível, ou por simples instinto suicida, pousavam na perereca e ali descansavam suas asas. O difícil era manter uma perereca feliz. Mesmo com toda a minha atenção e dedicação, aquilo apenas era uma patética figura de algo que um dia poderia pensar, sobre qualquer coisa que envolveria o espírito de uma perereca. Então eu soltava a infeliz e procurava outra que mereceria o meu cárcere, mas, pererecas não nasceram para ser presas. Quanta ironia! Ela, a perereca, a mais fácil de ser caçada e a mais difícil de ser agradada.
E então vem ela, não conhecedora da obra de arte que é caçar pererecas, me chamar de “mestre das respostas vazias”, quanta ousadia!
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