JANEIRO
Não sei pontuar a minha lembrança mais remota. Muito menos, a minha paixão mais antiga. Apenas, posso teorizar sobre o assunto e tentar descrever da melhor maneira possível. Os fatos e a ordem deles não ocorreram assim, mas, é como eu me lembro deles (não será preciso citar a frase de Ethan Hawke sobre os chavões novamente, certo?).
O nome dela é Bianca. Era minha vizinha de apartamento. Lembro muito pouco dela, do seu rosto, da sua voz e o que fazíamos. Lembro que tinha um cabelo escuro e longo, que o prendia com um rabo de cavalo. Mas a maneira que a descrevo, pode ser completamente mentirosa, quão acostumado estou com as peças que minha mente me prega e constantemente me traí.
Lembro de estar levemente apaixonado e não saber o que sentia. Uma vez, no terraço do prédio, perguntei inocentemente se ela me aceitava como seu namorado. Lembro que a resposta nunca veio. Lembro não ter ficado incomodado, nem ter tocado mais no assunto. Embora isso tudo possa ser mentira, quem poderá saber?!
Certa vez, ela havia ganho uma pasta de dente. Para mim viria ser uma novidade impressionante. Não era um pasta Colgate, isso já seria uma das coisas mais impressionantes (existiam outras pastas de dentes!). Era uma pasta Tandy, tinha um esquilo desenhado no tubo, o sabor era de morango. Lembro disso apenas por que ela, na inocência de uma criança, tinha lambuzado o dedo e me dado para provar a pasta. Talvez ela me visse como um irmão mais novo (ela tinha um ano a mais que eu) ou talvez não.
Como todo bom relacionamento; brigas! Nossa briga mais marcante foi no quarto dela. Estávamos brincando, eu tinha um urso e ela um palhaço de plástico que ria quando se dava corda. O motivo da briga? Não recordo. Apenas lembro de estar puxando freneticamente a corda do palhaço até ela não voltar mais, ela gritava e rasgava as orelhas do meu urso. Eu joguei o palhaço na parede, o que fez ele se desmontar. Mas ela só chorou de raiva, quando eu arranquei meu urso das suas violentas mãos, mãos torturadoras de pelúcias, e fui embora batendo a porta de seu apartamento. Algumas horas mais tarde estávamos no parque, convivendo, como se nada tivesse acontecido.
Janeiro, é o mês das novidades. Mesmo que as novas estejam velhas, é a oportunidade de conhecer e tentar (até buscar), pelo novo. Talvez, nesse caminho, consigamos nos descobrir enquanto lambemos as feridas dos meses passados.
Ou talvez não.
3 de jan. de 2009
20 de nov. de 2008
O caçador de pererecas
“O mestre das respostas vazias”, toda vez era assim. Ela me olhava, aqueles olhos verdes, aquele cabelo liso, aquele rosto angelical e delicado, aquela vagabunda desgraçada. Talvez a única coisa que fazia com perfeição era justamente, me irritar. Era boa em decifrar as charadas e perceber quanto de mentira eu dizia em cada mastigada e goles. Era uma pessoa muito difícil de se conviver, aquela piranha. Uma coisa que aprendi muito tempo atrás quando caçava pererecas, é que as coisas não são tão difíceis quanto aparentam ser (ou pelo menos não devem).
Tinha uns sete anos, quando percebi a incrível facilidade de capturar pererecas. Sim, tão fácil que chegava a ser ridículo. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Só. Tem gente que usa rede, tem gente que usa iscas, tem gente que se embrenha no mato. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Ia no pátio dos fundos de minha velha casa e levantava algumas cascas de árvores podres que mantinham a umidade em seu fundo. Sempre estava lá, a perereca. O segredo é ter calma em todos os teus movimentos, não bastava apenas saber mexer nas tábuas da forma apropriada, é saber que para prender a perereca será necessário aproximar o tubo por trás dela, pronto! Uma nova prisioneira acabara de nascer.
Caçar moscas para alimentação da perereca, também uma missão ridiculamente fácil. Eu só precisava de uma tampa de ralo. Às vezes eu jogava tantas moscas de esgoto no tubo que a perereca simplesmente cansava-se de pensar em fugir e ficava ali, inerte olhando as moscas baterem no tubo e algumas tomadas por uma letargia incrível, ou por simples instinto suicida, pousavam na perereca e ali descansavam suas asas. O difícil era manter uma perereca feliz. Mesmo com toda a minha atenção e dedicação, aquilo apenas era uma patética figura de algo que um dia poderia pensar, sobre qualquer coisa que envolveria o espírito de uma perereca. Então eu soltava a infeliz e procurava outra que mereceria o meu cárcere, mas, pererecas não nasceram para ser presas. Quanta ironia! Ela, a perereca, a mais fácil de ser caçada e a mais difícil de ser agradada.
E então vem ela, não conhecedora da obra de arte que é caçar pererecas, me chamar de “mestre das respostas vazias”, quanta ousadia!
Tinha uns sete anos, quando percebi a incrível facilidade de capturar pererecas. Sim, tão fácil que chegava a ser ridículo. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Só. Tem gente que usa rede, tem gente que usa iscas, tem gente que se embrenha no mato. Eu apenas precisava de um tubo e uma tampa. Ia no pátio dos fundos de minha velha casa e levantava algumas cascas de árvores podres que mantinham a umidade em seu fundo. Sempre estava lá, a perereca. O segredo é ter calma em todos os teus movimentos, não bastava apenas saber mexer nas tábuas da forma apropriada, é saber que para prender a perereca será necessário aproximar o tubo por trás dela, pronto! Uma nova prisioneira acabara de nascer.
Caçar moscas para alimentação da perereca, também uma missão ridiculamente fácil. Eu só precisava de uma tampa de ralo. Às vezes eu jogava tantas moscas de esgoto no tubo que a perereca simplesmente cansava-se de pensar em fugir e ficava ali, inerte olhando as moscas baterem no tubo e algumas tomadas por uma letargia incrível, ou por simples instinto suicida, pousavam na perereca e ali descansavam suas asas. O difícil era manter uma perereca feliz. Mesmo com toda a minha atenção e dedicação, aquilo apenas era uma patética figura de algo que um dia poderia pensar, sobre qualquer coisa que envolveria o espírito de uma perereca. Então eu soltava a infeliz e procurava outra que mereceria o meu cárcere, mas, pererecas não nasceram para ser presas. Quanta ironia! Ela, a perereca, a mais fácil de ser caçada e a mais difícil de ser agradada.
E então vem ela, não conhecedora da obra de arte que é caçar pererecas, me chamar de “mestre das respostas vazias”, quanta ousadia!
6 de out. de 2008
Sobre as regras do absurdo II
Os anos passam depressa. Muitas luas carregam para longe os meus sonhos..
Quanta choradeira, para quê ficar reclamando o tempo inteiro? Levanta a bunda do vaso, limpa o furo cagado e esquece quem te esqueceu. A vida continua, teu dedo torto continuará torto, teu cabelo escuro continuará escuro e violentamente registrado nas profundezas de seu código genético. Sua doença continuará incurável e sua safadeza continuará sendo apenas um desvio dessa personalidade de babaca e imprestável! Assim é a vida? Que mais esperava?!
.. e sigo a minha caçada. Alma atormentada que grita insultos para o nada e o nada apenas responde em absoluto silêncio.
Quanta choradeira, para quê ficar reclamando o tempo inteiro? Levanta a bunda do vaso, limpa o furo cagado e esquece quem te esqueceu. A vida continua, teu dedo torto continuará torto, teu cabelo escuro continuará escuro e violentamente registrado nas profundezas de seu código genético. Sua doença continuará incurável e sua safadeza continuará sendo apenas um desvio dessa personalidade de babaca e imprestável! Assim é a vida? Que mais esperava?!
.. e sigo a minha caçada. Alma atormentada que grita insultos para o nada e o nada apenas responde em absoluto silêncio.
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